Em 1859, quando retorna a São Petersburgo após ficar quatro anos preso na Sibéria, Fiódor Dostoiévski começa a idealizar seu próximo romance: Humilhados e ofendidos (Editora 34, tradução de Fátima Bianchi). O título certamente ilustra bem o que ele passou em seus dias de prisioneiro, mas aqui ele retrata o povo. Diariamente ofendidos em seus direitos, humilhados pelas circunstâncias da vida, as personagens do romance são uma reunião de pessoas pisoteadas pela sociedade, por mais trabalhadores e honestos que sejam.

Todo lugar, das grandes metrópoles às pequenas cidades do interior, tem uma rua que reúne nele seus tipos, sua vida social. Avenida Paulista, Quinta Avenida, os calçadões de Ipanema, a Champs Elysées, a Rua dos Andradas… Podemos listar uma rua importante para cada cidade, onde as pessoas se encontram, flanam, trabalham, enfim, onde se cria todo o imaginário que vira retrato daquele lugar. No ano passado, a Cosac Naify publicou uma linda e interessante edição de Avenida Niévski, de Nikolai Gógol, um dos contos de sua série de histórias de Petersburgo escritas entre 1832 e 1842. É o cotidiano dessa avenida – na época, a principal da capital do império russo – que é retratado no conto.

O início da narrativa parece uma declaração de amor à Avenida Niévski, com Gógol exaltando a maneira como ela se transforma no decorrer das horas – mendigos e boêmios pela manhã bem cedo, ao acordarem, funcionários públicos a caminho do trabalho, os almoços, os passeios ociosos dos ricos durante a tarde, a turba barulhenta e ávida por contato social da noite. A avenida é portadora de uma misticidade que atrai para ela todos aqueles que querem ser vistos e querem ver. Uma avenida que é caminho, passagem, vitrine e inspiração.

O que leva uma pessoa a cometer um crime? Pobreza, situação social, vontade, superioridade, ganância? E qual é a conseqüência desse crime? Podemos listar diversos casos onde o criminoso era um psicótico que não conseguia parar de matar ou um pai de família, tentando conseguir comida para os filhos. E as conseqüências podem ser prisão, morte, ou até liberdade sem nenhuma suspeita. Dependendo do caso, tudo ou nada pode acontecer. A reflexão sobre o que leva alguém a cometer um crime e o que acontece com essa pessoa é o que Fiodor Dostoiévski faz em um de seus mais famosos romances, Crime e Castigo.