Não há explicação para a perturbação que aflige Yeonghye. Depois de ter um sonho cheio de sangue e morte, essa pacata sul-coreana decide parar de comer carne. Ela sempre foi boa cozinheira e nunca antes demonstrou sinais de que gostaria de ser vegetariana. Sua transição para uma vida sem carne não foi gradual, não foi planejada. O sonho que tanto a perturbou a fez tomar essa decisão brusca, e no dia seguinte já aboliu qualquer alimento de origem animal da sua dieta. Mas a decisão de Yeonghye não a afetou apenas individualmente. Toda a sua família sentiu os efeitos de sua nova vida vegetariana.  

Uma das coisas que mais me incomodam ao falar sobre a mulher é a certeza de que o maior sonho de todas é ser mãe. Como se engravidar uma, duas, dez vezes fosse o grande ápice de sua vida – ou seria ver o filho crescer, se formar, sair de casa etc. Não duvido que isso traga sim imensa alegria – para os homens também –, mas discordo de que toda e qualquer mulher sonha exatamente com isso. Como se ela não fosse um indivíduo, mas sim um ser obrigatoriamente composto por uma extensão chamada filhos. E depois da imagem de mãe concretizada, desvinculá-la disso parece ser ainda mais difícil: a mulher passa a ser aquela pessoa que se dedica apenas à criação, ao cuidado das crianças e do lar, cujas ações visam sempre sua família. Não, uma mulher e uma mãe são mais do que isso, e é difícil enxergar e reconhecer que elas têm desejos que vão além de sua prole. Que elas também pensam – e precisam pensar – em si mesmas.