Em 2000, o escritor uruguaio Mario Levrero ganhou uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar um livro que tinha começado a escrever em 1984. O romance luminoso, nome desse projeto, era para ser um livro sobre os momentos luminosos da vida do autor, acontecimentos marcantes, não necessariamente grandiosos, que vivenciou. Mas escrever sobre esses momentos se mostrou uma tarefa árdua: difícil colocar em palavras as sensações que esses acontecimentos despertaram, difícil explicar ao leitor por que essas interações simples se embrenharam tão fundo na memória do autor. Mas Levrero queria terminar esse livro, não queria deixar o mundo – ele morreu em 2004 – sem finalizar o projeto. Só que, da mesma forma que dinheiro não compra felicidade (embora eu ache essa frase bem discutível, que só pode sair da boca de alguém que nunca passou por uma dificuldade financeira na vida), ele também não compra inspiração.

Sou simpática a livros curtos. Com Bonsai, de Alejandro Zambra, foi paixão na primeira leitura. Existe algo na finura do exemplar, no tamanho grande da fonte e nos grandes espaços em branco na página que me atraem logo para a leitura. Como se um livro breve fosse a melhor representação da frase “o que é bom dura pouco”. Óbvio que essa impressão existe também com os grandes romances – em que 700 páginas são lidas sem mal notar. Mas com o livro curto você sabe que será rápido mesmo, em um, no máximo dois dias (se você se esforçar demais para adiar a leitura), vai terminá-lo. Era isso o que eu pensava logo que comecei Um, dois e já (Cosac Naify, 2014), primeiro livro da uruguaia Inés Bortagaray publicado no Brasil.