Poucas coisas são tão desejadas pelo adulto moderno quanto horas ininterruptas do sono. Ao dormir, é como se todas as preocupações da vida evaporassem ao fechar dos olhos: trabalho, boletos, relacionamentos que deram errado, carreiras estagnadas. Um sono sem sonhos é o ápice do conforto e bem-estar. Queria eu dormir e acordar daqui a um ano, seja para ver as coisas melhorarem ou para ver o mundo pegar fogo. Mas pelo menos teria um ano inteiro de descanso extremo. Ou, como coloca a protagonista do segundo romance de Ottessa Moshfegh, um ano inteiro de descanso e relaxamento.

Um bom resumo de Mac e seu contratempo, novo romance de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), seria a clichê frase “nada se cria, tudo se copia”. Em sua obra, Vila-Matas sempre tratou da própria ficção, da arte, do processo de escrita, do que é literatura e como ela se alimenta de suas influências. Neste romance, a metaliteratura está presente com força, abordada em um diário sobre a (re)escrita de um livro.

Só porque as listas de bons livros lidos nos anos anteriores sumiram do blog – aquele problema lá que me obrigou a passar horas subindo todas as resenhas novamente -, e porque estou com vontade de fazer uma lista, aqui vai o meu top 16 de melhores leituras do ano. Queria que fosse um top 5, ou no máximo um top 10, mas revendo a lista de livros lidos de 2013 vi que seria impossível fazer uma seleção mais enxuta.

Foi um ano de bons livros, apesar de ter lido menos que o esperado por ter que me dedicar mais ao final do curso de jornalismo e usar boa parte do meu tempo de leitura para isso – aos curiosos, podem me considerar formada. Talvez se eu ainda estivesse no meu ritmo antigo de leitura essa lista fosse maior. Talvez. Mas estou satisfeita com o que li, e principalmente com o que conheci durante esse ano.

Encantar é seduzir, cativar. Ou também, numa visão mais lúdica, pode ser lançar uma magia, enfeitiçar. Seja lá qual for a definição que você dê a essa palavra, nas duas poderíamos enquadrar o escritor Vladimir Nabokov. É isso o que a autora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh tenta nos convencer durante todo o seu livro de estreia no Brasil, O encantador. E ela não só nos convence de que Nabokov, autor de livros controversos como Lolita e Ada ou ardor, foi um homem extremamente feliz e abordou isso com maestria em todos os seus livros, como também lança um feitiço sobre o leitor deixando-o hipnotizado pela sua relação com a obra que admira. Lila é tão encantadora quanto Nabokov.

O meu interesse pela escritora começou com a sua vinda para a Flip de 2013. Nunca havia prestado atenção a esse nome, mas na casa em que estava hospedada em Paraty, durante a primeira noite da festa, acabei pegando sem querer uma entrevista dela no Programa do Jô. Foi encantamento instantâneo. Primeiro, por ela ser incrivelmente simpática e por falar apaixonadamente sobre o seu “escritor-obsessão”. E segundo, por se esforçar para falar um português claro, preocupada com os erros de pronúncia, língua que aprendeu especialmente para participar da Flip – em um ano de conversas diárias com um brasileiro via Skype. Sei que não se deve misturar o autor com a obra ao analisar um livro, mas me surpreendi com a humildade e inteligência de Lila – pelo menos humildade não é o que eu espero de uma pessoa que dê aulas desde os 23 anos de idade em Harvard e fala mais de seis idiomas. Minha experiência com acadêmicos geralmente os relaciona com pedantismo. E também é difícil separar autor e obra ao ler um livro que faz justamente isso: mistura a ficção e a realidade da vida de Nabokov e dela mesma.

Vamos dizer que é compreensível que uma pessoa que tenha passado por um grande trauma se mate. Por grande trauma quero dizer: ter vivido um momento de violação física e psicológica infringido por outros, nela mesma ou vista por ela em algum momento, que seja tão horrível e impraticável que lhe abre uma ferida que não é capaz de cicatrizar. Uma ferida que faz da morte uma opção preferível à superação ou convivência com as marcas e memórias. Não é que se espere que essa pessoa tire sua vida, apenas que é possível entender seus motivos – um abuso físico, um bullying, uma perda inconformada, um sentimento de abandono e solidão. As pessoas guardam em si coisas que lhe são caras, e a sua perda é irreparável ou impossível de se conformar em vida.

as-entrevistas-da-paris-review-vol-2A Paris Review é uma das maiores referência em revistas literárias. Fundada em 1953, o que guia a publicação é a criação literária e poética, e além de publicar autores e suas ficções, também abre espaço para a crítica – que quando lançada, propôs tirar a análise dos livros da exclusividade acadêmica e levá-la para um público mais amplo. Não são apenas os contos, poemas e críticas publicadas o grande conteúdo da Paris Review, mas também suas extensas entrevistas da série “Writers at Work”, que como o nome sugere, mostra ao leitor como grandes autores trabalham em suas obras, como criam.

Há pouco tempo a Companhia das Letras lançou no Brasil o segundo volume de As entrevistas da Paris Review, uma série de livros que reúnem as mais célebres entrevistas com escritores, jornalistas e autores de teatro. Se o primeiro volume contou com nomes como Truman Capote, Doris Lessing, Jorge Luis Borges, William Faulkner e Ernest Hemingway, o segundo traz um time composto por Joseph Brodsky, John Cheever, Julio Cortázar, Salman Rushdie, Hunter S. Thompson, Arthur Miller, Martin Amis, Louis Begley, Marguerite Yourcenar, Elizabeth Bishop, Milan Kundera e Vladimir Nabokov. Não é pouca coisa.