O primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa.

Só porque as listas de bons livros lidos nos anos anteriores sumiram do blog – aquele problema lá que me obrigou a passar horas subindo todas as resenhas novamente -, e porque estou com vontade de fazer uma lista, aqui vai o meu top 16 de melhores leituras do ano. Queria que fosse um top 5, ou no máximo um top 10, mas revendo a lista de livros lidos de 2013 vi que seria impossível fazer uma seleção mais enxuta.

Foi um ano de bons livros, apesar de ter lido menos que o esperado por ter que me dedicar mais ao final do curso de jornalismo e usar boa parte do meu tempo de leitura para isso – aos curiosos, podem me considerar formada. Talvez se eu ainda estivesse no meu ritmo antigo de leitura essa lista fosse maior. Talvez. Mas estou satisfeita com o que li, e principalmente com o que conheci durante esse ano.

A procrastinação é o mal daquele que conhece o valor da internet e seu vasto conteúdo. Todos procrastinam o trabalho, a aula, os exercícios físicos e até a vida social, e uma grande incentivadora disso é a internet. Todos procuram por uma cura, mas não encontram porque ficaram tempo demais… procrastinando. Miranda July criou um sistema para burlar o gasto de tempo com coisas inúteis que adiam as tarefas importantes, um vídeo que volta e meia retorna às timelines do Twitter e Facebook pela genialidade de seu método – que é uma cena deletada de seu último filme, The future. Na verdade, por ser uma grande procrastinadora – ou seja, usuária da internet, smartphones e todas as suas possibilidades –, está sempre à procura de maneiras para evitar o adiamento das ações, e um deles foi tornar a procrastinação algo produtivo. O resultado disso foi o livro O escolhido foi você.

Enquanto escrevia o roteiro de The future, Miranda se viu em meio a uma crise de bloqueio criativo. Para tentar encontrar alguma inspiração ou apenas para fazer o tempo passar, começou a ler avidamente as edições do PennySaver, um classificado gratuito entregue em Los Angeles pelos correios todas as terças-feiras. O jornalzinho continha anúncios de tudo: gente querendo vender de eletrodomésticos a objetos inúteis, de animais a roupas. E foi aí que Miranda teve seu estalinho criativo que a levou a transformar essa leitura em algo útil: ligar para os anunciantes mais estranhos, marcar um encontro e entrevistá-los sobre as suas vidas.