Pense nos relatos de guerra, de que forma eles são feitos. Há a história de quem ganha, cheia de atos heroicos e grandiosidade. Há a de quem perde, essa talvez menos contada, provavelmente porque desperta vergonha, vulnerabilidade. Mas uma coisa que essas histórias têm em comum é a sua fonte: geralmente narradas por homens, construídas por eles. Em filmes, livros, séries, quando a guerra é o tema são os homens os personagens principais. As mulheres têm o papel de cuidar dos homens, ser suas enfermeiras, suas amantes, aquelas que seguram as pontas em casa e esperam pela sua volta. Mas há um papel que as mulheres tiveram na Segunda Guerra Mundial que, perto do tanto de histórias que temos de homens lutando, é praticamente esquecida. A história das mulheres que realmente combateram, pegaram em armas e estiveram no campo de batalha. Essa é a história que Svetlana Aleksiévitch quer contar.

Mudança era para ser um livro sobre as mudanças pelas quais a China passou nos últimos 30 anos. No povoado rural em que nasceu, Mo Yan viveu os últimos dias da era maoista, vivenciou a Revolução Cultural e se tornou escritor enquanto a China caminhava para um grande crescimento econômico. Mas o livro, uma encomenda feita por Tariq Ali para a coleção What Was Comunism, acabou tomando outra forma do que um relato preciso sobre as transformações da China comunista. Na verdade, é uma “autobiografia ficcionalizada” em que Mo Yan mostra a mudança por um viés mais humano, focado nas pessoas de seu povoado e em um velho caminhão soviético.

Um caminhão soviético porque, desde quando ainda estava na escola, a vida de Mo Yan esteve ligada ao Gaz 51 dirigido pelo pai de uma de suas colegas, Lu Wenli. Na comunidade rural em que cresceu, dirigir um caminhão conferia um status superior ao seu motorista e sua família, pois poder sentar atrás de um volante e ser responsável por ele era um sinal de importância que deveria ser respeitado. Havia satisfação em ver o Gaz 51 percorrendo as ruazinhas, levantando poeira sem se importar com o que vinha pela frente – o que causava a morte de muitas galinhas por atropelamento. Todas as crianças sonhavam em sentar no banco do caminhão com o pai de Lu Wenli para sentir sua velocidade.

Em 2013, aos 82 anos de idade, a canadense Alice Munro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A autora já tinha alguns livros traduzidos aqui no Brasil, mas, como é regra para mim, geralmente não conheço escritores recém-agraciados com o prêmio da academia sueca, e o Nobel acaba sendo o ponto de partida para lê-los. Felizmente, assim que anunciado, editoras apresentaram novas edições e traduções engatilhadas – como a de seu último livro publicado, Vida querida. Outra delas foi Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, publicado no final do ano passado pelo selo Biblioteca Azul da Globo Livros.

O volume traz nove contos que narram vidas de personagens bem distintas: jovens, idosos, crianças, todas as histórias girando em torno de reencontros, do companheirismo, do amor e de algumas traições. O primeiro conto, que dá nome ao livro, faz referência a uma brincadeira adolescente de duas das personagens, que inventam cálculos matemáticos com os nomes de suas paqueras e, contando em ordem, preveem se suas relações vão terminar em ódio, amizade, namoro, amor ou casamento. Neste primeiro conto Alice Munro joga com a percepção do leitor, fazendo a história mudar de rumo a toda hora.

Marca presente em qualquer governo totalitário e ditatorial, a censura e a perseguição a grupos que pensam o contrário do governante são constantes. No Brasil comandado pelos militares, milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e mortas só por pensarem ou apoiarem a luta por uma democracia verdadeira – muitos casos vindo à tona ou apenas tendo confirmação só agora. Para quem nasceu depois desse período, já com liberdades de expressão garantida, chega a ser difícil imaginar que houve um tempo em que ser contrário a algo poderia significar a morte. Mas a literatura sobre esse tema é vasta, e nos faz conhecer os horrores de viver sob o peso da censura.

Infelizmente, não foi só o Brasil que viveu sua ditadura. Tais regimes fazem parte da história política de muitos países, e alguns ainda vivem sob eles. Para a ganhadora do Nobel de Literatura de 2009, Herta Müller, romena de origem alemã, falar sobre esse tema é parte central de sua obra. Filha de um ex-soldado da SS nazista na Segunda Guerra Mundial, Herta nasceu na Romênia, para onde muitos alemães foram enviados após o fim da guerra. Esquecidos no país, essa minoria composta por milhares de alemães viveram sob o regime comunista de Nicolae Ceausescu, que durou de 1965 a 1989. A violência desse período fez parte da vida de Herta, que no romance Fera d’alma usa parte de sua história real para contar o drama de jovens perseguidos pela Securitate, a polícia romena a serviço de Ceausescu.