Falar de amor é passatempo preferido da literatura. Amores, paixões, relacionamentos que se formam ou que se desgastam são matéria-prima para a maioria dos romances – quando se fala em “romance”, o gênero, muitos não familiarizados tendem a confundir com uma história de amor, um livro sobre uma moça que encontra um rapaz e eles-se-apaixonam-e-devem-enfrentar-vários-desafios-para-ficarem-juntos. Esse seria um esquema clássico de uma história de amor. Mas Os enamoramentos, de Javier Marías, passa longe dessa fórmula. Não parece ser uma história de amor, mas uma história sobre o amor, em suas formas mais variadas e que impulsionam ações não necessariamente corajosas ou moralmente belas.

María Dolz trabalha em uma editora em Madrid, e todos os dias pela manhã toma seu café em uma cafeteria perto de seu escritório. E todos os dias observa aquele que chama de Casal Perfeito, um homem e uma mulher que estão também todas as manhãs naquele café, às vezes com os filhos pequenos, às vezes sozinhos, mas sempre o motivo de María chegar atrasada para o trabalho. O que ela sente ao observar esse casal não é inveja, como muitos poderiam pensar – porque o amor alheio dá inveja, sim, naqueles que não têm um amor ou contam apenas com um caso mal resolvido. O que prende sua atenção é a forma como parecem se amar incondicionalmente, como o humor do homem e da mulher combinam, como parecem perfeitos um para o outro e inabaláveis. Até que ele morre.