O primeiro homem mau, novo livro – e primeiro romance – de Miranda July (tradução de Caroline Chang e Christina Baum) causa estranhamento – o que não é ruim. Cheryl é uma mulher de 43 anos obcecada por um homem com mais de 60. Vive de uma forma bem monótona, regrada, fazendo tudo para economizar tempo e esforço. Tudo para não chegar ao extremo de jantar na banheira e fazer xixi em garrafas quando está sem forças para levantar – quando a vida parece miserável demais e não há sentido em manter a casa limpa, o cotidiano em ordem e sair para trabalhar (te entendo, Cheryl).

Sua obsessão por Philipp vem da certeza de que eles, em vidas passadas, eram um casal, assim como a certeza de que há, no mundo, um menino de quem ela é a verdadeira mãe – Kubelko Bondy, uma “entidade”, acho melhor dizer, que ela percebe psiquicamente em crianças com as quais cruza na rua desde pequena, sempre dizendo “dessa vez ainda não sou sua mãe, mas nunca vou te abandonar”, e abandona. É uma rotina bem peculiar que é logo quebrada e virada mais ainda de cabeça para baixo quando Clee, filha de 20 anos de seus patrões, se hospeda em sua casa sem indicativos de sair. E é aqui que a história realmente começa.