Costumo ter algumas fases em que livros sobre certos temas me interessam mais. No início do ano, a minha obsessão literária eram os livros sobre suicídios, boa parte deles protagonizados por jovens que não teriam, aparentemente, motivo algum para tirar a vida. No momento as leituras andam bem dispersas em se tratado de temas, mas tenho planos de ler mais sobre questões do cérebro e da memória. E apesar dessa gama enorme de assuntos e abordagens que a literatura tem, meu interesse sempre acaba voltando para as histórias de amor. Não há pessoa que em algum momento da vida não lide com esse sentimento, de estar apaixonado ou enamorado por alguém e fazer toda sua rotina girar em torno disso. Então me animei quando, recentemente, a Companhia das Letras anunciou a publicação pelo selo Penguin-Companhia de uma série de textos clássicos na coleção Grandes Amores, começando com O diabo no corpo, de Raymond Radiguet, e Os mortos, de James Joyce.

Como os títulos sugerem, essas “grandes histórias de amor” não parecem ser daquelas que terminam felizes – essas são justamente o meu tipo preferido. Comecei lendo O diabo no corpo, uma clássica novela francesa publicada originalmente em 1923, escrito pelo jovem Radiguet, que morreu com pouco mais de 20 anos de idade. Radiguet era um prodígio das letras que escrevia desde a adolescência, e sua história se reflete no protagonista de O diabo no corpo. A esposa de um soldado que está nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial se envolve com um jovem de 16 anos, que conta sua história de amor “proibido” com a mulher de 19 anos. São dois jovens, mas a sociedade da época os condena pela relação.

“O mais belo livro publicado em nossa terra durante a minha vida. Faz pensar em Homero”. Essa não foi uma frase de um crítico literário ou um escritor elogiando seu par. Está dentro de Ulysses, falando sobre o próprio livro, uma bela brincadeirinha de seu autor, ou assim me pareceu. Começar a ler o “clássico dos clássicos” vem acompanhado de certo nervosismo. Ulysses foi o livro do século XX, o grande romance, a obra que “tem-que-ser-lida-ou-você-não-conhece-literatura-de-verdade”, e que você “tem-que-entender-ou-é-um-analfabeto-funcional” – ou então que “é-difícil-pra-caramba-só-finge-que-entendeu-e-fala-que-leu-para-não-pegar-mal”. Não deve ser o livro com a melhor fama entre os leitores, mas é o mais admirado – algo meio tirânico de se pensar. Quando saiu a notícia de que uma nova tradução da obra-prima de James Joyce seria lançada no Brasil, o contrário tomou conta dos discursos na internet. Ulysses não é difícil, disseram. É só se deixar levar e aceitar o que o labiríntico dia 16 de junho de 1904 tem a oferecer. Foi com isso que decidi enfrentar o catatau de James Joyce, sem medo e sem me preocupar com o que ganharia com essa leitura.

o-grande-gatsbyNos últimos meses, a tal Era do Jazz parece ter voltado a ser interesse de editores e leitores. Um filme de Woody Allen que trouxe um ambiente mágico com grandes figuras dos anos 1920 se divertindo por Paris – filme que, aliás, fez os livros desses escritores esgotarem nas livrarias –, e o anúncio de novas adaptações por vir certamente contribuíram para que os holofotes se voltassem para a literatura dessa época. Que o diga F. Scott Fitzgerald, que em um mesmo mês teve sua mais famosa obra reeditada por duas editoras brasileiras, L&PM e Companhia das Letras. Para ler O grande Gatsby, que figurava há muito tempo na lista de livros que eu queria encarar, acabei escolhendo a tradução de Vanessa Barbara da editora paulista.

O livro é narrado por Nick Carraway, um homem em seus quase 30 anos que relata a trágica história de amor entre Daisy e Jay Gatsby em Long Island do início do século XX. Gatsby é um homem rodeado por mistérios, ninguém sabe exatamente o que ele faz, de onde veio e, principalmente, de onde vem a fortuna que usa para manter a casa e as festas que promove em West Egg. Carraway, seu vizinho e primo de Daisy, é quem conquista a confiança de Gatsby, e aquele a quem ele recorre para reencontrar quem amou no passado, agora casada com Tom Buchanan e morando em uma mansão no outro lado da baía, em East Egg. O romance é curto, porém com uma densidade que arrebata o leitor para a tragédia iminente que se anuncia conforme Daisy e Gatsby se reaproximam.

Parece que é só de hoje, mas política e corrupção são duas coisas que andam juntas há muito tempo. Quando uns reclamam que governo tal é corrupto, outros respondem com a frase: “mas isso sempre foi assim”. Ou dizem então que essa sensação de que a roubalheira do governo só parece ser maior agora porque é mais noticiada. Isso até pode fazer sentido, embora considere que tendemos a achar os problemas atuais muito maiores do que os de uma época que já passou – sensação acentuada pelo hábito de não pesquisar por conta própria para nos informarmos mais sobre. Mas o fato é que, aqui no Brasil – e outros lugares do mundo também –, a corrupção não é um mal dos dias contemporâneos ou só dos prédios em Brasília, mas vem de longe, de quando a nossa capital não existia nem em sonho.

As críticas a um governo mergulhado em roubo e exploração do dinheiro púbico já eram feitas antes mesmo da Proclamação da República, como em 1868, quando foi publicado o romance Memórias do sobrinho de meu tio, de Joaquim Manuel de Macedo, que ganhou nova edição pelo selo Penguin – Companhia das Letras. Continuação de outro livro do autor, A carteira de meu tio, esse romance dá sequência às aspirações políticas de um certo jovem sem estudos, sem vergonha na cara e sem escrúpulos. Seu objetivo é ser eleito deputado da província do Rio de Janeiro – cargo que o próprio autor ocupou em 1854 – e para isso vai contar com uma herança deixada por seu tio, que falece logo no início dessa história. Com linguagem sarcástica que explicita as ideias pouco lisonjeiras do protagonista, Macedo introduz o leitor à situação política do Brasil nesses anos sem esconder dele o que realmente interessava aos “representantes do povo”: enriquecer e viver à custa do governo.