“Eu faço a vida como quem tem sorte / e não prática / como quem deseja o fruto / e o tendo à mão / não colhe / como quem só espera da lástima / que evapore.” Num verso de degustação da contracapa de Sétima do singular, livro de Diego Grando publicado pela Não Editora, já pude perceber uma identificação que é difícil eu ter com a poesia. Ao ler “Hiato”, de onde é tirado esse trecho, a confirmação é de que sim, essas foram as palavras que mais me disseram algo, e assim permaneceu até o fim da leitura. Não quer dizer que apenas a contracapa já sirva como contato com os poemas dele, abrir o livro vale à pena. Assim como podemos escolher uma roupa ao vê-la na vitrine, não significa que olhar o que mais a loja tem a oferecer não possa ser recompensador.

Sétima do singular é dividido em sete partes, cada uma delas com sete poemas. Essas partes são condicionadas a um tema, todas as poesias dentro de uma coisa só: o ser poeta, as relações, o cotidiano, as profissões ordinárias – e por ordinárias se entende “frequente”, “comum” – o ser (e não ser) fumante. Curtos, mas carregados com aquilo que o poeta e o leitor podem ter em comum em experiência: o que um diz se encaixa no que o outro sente. E para quem, como eu, não tem a poesia em alta conta e chega a considerá-la intragável, Diego Grando mostra o contrário: a poesia se entende, sim, e ainda conta histórias.

Sensações e sonhos são os materiais principais para as poesias. Amor é o sentimento que muitos atribuem a ela como forma de representação, mas ainda há como falar de sofrimentos – sejam ligados ao romance ou não –, de expectativas e, porque não, do próprio cotidiano. Com temas que giram em torno da vida no campo e suas dificuldades, Valmor Bordin estrutura os textos de Poemas Famintos, livro publicado pela editora Dublinense. Filho de agricultores, Bordin trouxe para a poesia a vivência no interior e a fonte de sustento de sua família: o vinho. Esse sustento é o cerne dos poemas que versam sobre o cultivo, a colheita e a venda dos produtos da terra, mas não se contentam apenas a mostrar de forma rimada esse cotidiano. O campo, algumas vezes, é apenas uma alegoria para tratar de questões maiores sobre a vida.

Os versos de Bordin são breves. Os primeiros poemas, dedicados aos pais, retornam aos tempos de juventude do autor, em que o sucesso de uma colheita é garantia da sobrevivência da família, e os dias giram em torno da apreensão de se conseguir uma boa safra. O vinho, aqui, tem importância maior do que trazer dinheiro para a casa. Ele traz a vida para aqueles que dele dependem. Com esses versos, Bordin evoca as texturas e odores daquela época, lembrando os trejeitos dos pais em cada tarefa que faziam e a importância do trabalho de pessoas simples.

Vou dizer que sou suspeita para falar da estreia de Guilherme Tauil na literatura. Muito suspeita. Conheço o Tauil e me sinto endividada com ele desde a Flip do ano passado, quando o arrastei da frente do telão da mesa com Robert Crumb para ir comigo a uma lojinha meio hipster comprar uma saia que eu vi e não me saia da cabeça. Por isso sou mais suspeita ainda, porque essa resenha pode parecer uma forma de me redimir. Mas não é, não. A resenha é sincera – juro. Principalmente porque prometi a ele dizer realmente o que eu penso sobre as crônicas – e uma poesia – que compõem seu primeiro livro, Prosa de Gaveta. E promessa é dívida.

A capa em braile já convida para a leitura, mexe com o lado sensorial do leitor. Claudia Schroeder fala de toque, amor, sexo e paixão eu seus curtos poemas publicados pela editoraDublinense no livro Leia-me Toda. Vencedora de vários concursos de poesia em 2010 e também do Prêmio Off-Flip de Literatura, Claudia coloca sensualidade e desejo nos pequenos versos que contabilizam 80 páginas do livro. Mas muitos dos poemas deixam a desejar pela superficialidade, no entanto pode-se encontrar alguns que vão além do simples jogo de linguagem.

O que menos gosto na poesia geralmente é a rima. Considero que às vezes o poeta se preocupa mais em fazer as palavras combinarem do que fazer a poesia ter algum sentido. Odeio não entender o que está escrito, ou então tirar do texto tão pouca coisa que não me incentiva a tentar pensar sobre ela. Menino Perplexo, de Israel Mendes, reúne poemas que geralmente trabalham a rima. Mas felizmente, seus poemas não só possuem sentido claro como contam de forma simples curtas histórias. Nele, o poeta brinca com a língua portuguesa e com o próprio espaço físico do livro.

O que esperar de um livro de poesias chamado Cor de Maravilha, de autoria de uma mulher, cuja capa usa tons claros que remetem a coisas bonitas? Certamente, espera-se por versos repletos de sentimentos apaixonados, que falam de amor, amizade, e outras coisas alegres e melosas. Porém, não é isso que a gaúcha Maria Joaquina Carbunck Schissi dá aos leitores do novo lançamento da editora Dublinense. Cor de Maravilha aborda sentimentos contrários a tudo aquilo que se espera da poesia.

Poeta e editor da Revista Confraria, Márcio-André fez uma viagem no mínimo estranha em 2007. Aproveitando uma ida à Europa, cismou em visitar Pripyat, na Ucrânia, cidade atingida pelo desastre nuclear de Chernobyl ocorrido em 1986. Em meio aos prédios e casas abandonadas e exposto à intensa radiação, Márcio-André realizou a primeira Conferência poético-radioativa de Pripyat. A sua performance, com leituras de poemas próprios e de outros nomes renomados, lhe rendeu o título de poeta radioativo. Ensaios Radioativos, então, é um livro sobre ele, aquele que trouxe ao país um pouquinho da energia nuclear da Ucrânia.