Já falaram muito sobre a forma, os traços, as linhas, o desenho, a composição, as referências à arquitetura, à Grécia e sua mitologia e tudo o mais que podemos encontrar de bom em Asterios Polyp. A nova e surpreendente obra de David Mazzucchelli, vencedora dos prêmios Eisner e Harvey (e aqui publicada pela Quadrinhos na Cia.), chegou até mim carregada de elogios à sua beleza gráfica, ao uso incomum das cores, aos traços ousados e ao cuidado do quadrinista ao utilizar tudo o que o gênero permite para contar uma história – cada elemento de suas páginas é fundamental e faz parte da narrativa. Mas o que nenhuma indicação ou resenha me disseram sobre Asterios Polyp – ou o que eu não vi, procurando apenas por comentários sobre a forma – é que ele narra uma história de amor e perdas.

Asterios é um arquiteto “de papel”, um profissional renomado que nunca teve um de seus projetos construídos, mas é muito reconhecido pelas suas teorias e pela carreira acadêmica como professor em Ithaca. Ele é um homem que pode ser descrito como possuidor de linhas retas, bem planejadas e duras, tudo em sua vida segue à risca a regra da utilidade. O mundo, para ele, é dividido em dois: o útil e o inútil, o bonito e o feio, o vencedor e o perdedor. Ele é o vencedor – o gêmeo que viveu, que prosperou. Mas isso vemos apenas no transcorrer da história. No início da HQ, Asterios é só um homem desgraçado, deitado na cama enquanto tudo à sua volta está de pernas para o ar, até que um raio atinge seu apartamento. Na pressa de sair para escapar do fogo, leva consigo apenas três objetos: um relógio, um isqueiro sem fluido e um canivete suíço. O resto do apartamento e toda a sua vida ele deixa ser consumido pelas chamas.

Quando três sombras misteriosas surgem no horizonte, a vida de Louis, Lise e seu filho Joachim muda da alegria para o medo. Encapuzadas e de rostos obscurecidos, as sombras se tornam constantes, vigiando a rotina dessa família que antes era tão tranqüila e inocente, escondida pelas colinas de uma paisagem medieval. Uma vida invejável, onde pássaros cantam, rios correm limpos, frutas crescem saborosas e o único dever é aproveitar e preservar esse cotidiano. As sombras destroem essa vida, mas não diretamente. Elas agem pelo medo do desconhecido, e temendo que elas tenham aparecido para levar o pequeno Joachim, Louis parte com o filho para uma viagem por lugares tão diferentes de sua realidade pacata para tentar salvá-lo.

Em 1992, o Pulitzer teve um prêmio inédito: não se sabia se era ficção ou biografia, mas Maus, graphic novel de Art Spiegelman, foi agraciado com a maior premiação do jornalismo. Publicado em duas partes, a história de Vladek, pai do autor, emocionou leitores no mundo todo. E apesar de muitas obras falando sobre o mesmo assunto, Spiegelman conseguiu muito bem falar sobre o Holocausto não só em uma mídia diferente – os quadrinhos -, mas também em um formato que aproximou ainda mais o leitor da experiência que narra. Em 2009, o selo Quadrinhos na Cia. publicou as duas partes de Maus – Meu Pai Sangra HistóriaE Aqui Meus Problemas Começaram – em um único volume, para que o leitor pudesse se emocionar com a história de Vladek de uma vez só.

Uma trilha de sinais inunda o chão de uma casa. Passando por portas e cômodos do lugar, ela termina em um quarto, saindo dos ouvidos de um homem que acabou de chegar ao lar. Ele está esvaziando sua cabeça de tudo o que viu no trabalho, no ônibus, nas ruas, na fila do banco. Todas as músicas que tocaram nos alto-falantes dos celulares, todas as fofocas sobre novelas e os papos sobre futebol. E ao chegar em casa,  a primeira coisa que faz é se livrar desses vestígios da cidade grande, de tanto barulho e poluição visual, para poder dormir em paz e abrir espaço para novas coisas que irá ouvir e ver no dia seguinte. Não, isso não é explicitamente narrado por Rafael Sica em seu livro lançado pelo selo Quadrinhos na Cia. Essa é a minha interpretação da primeira tirinha de Ordinário, um trabalho que fala de coisas corriqueiras, digamos simples, mas complexas ao olhar atento do leitor.