Amor e fé podem ser as duas palavras que resumiriam Habibi, nova graphic novel de Craig Thompson. Foram anos de trabalho em cima desse volume de mais de 600 páginas ricamente detalhadas inspiradas nas histórias do Corão e nas Mil e uma noites. Só a caligrafia árabe, suponho, já configura um trabalho ardoroso nesse livro que chega agora ao Brasil pela Quadrinhos na Cia. Habibi conta a história de dois escravos que se uniram em busca da sobrevivência, criaram um mundo só deles, imaculado, repleto de histórias sagradas e seus ensinamentos. Porém, esse mundo em uma hora é desconstruído, quando seus dois habitantes são separados e, com essa desunião, descobrem ainda mais as relações que impulsionam os homens e o seu poder.

Dodola tinha 9 anos de idade quando foi vendida pelo seu pai a um escriba, que a tomou como esposa. Apesar de jovem demais para o casamento, mesmo o arranjado, ela aprendeu muito com seu marido, que a contou todas as histórias que copiava e a ensinou a ler e escrever. Mas pouco tempo depois, sua casa é invadida, o marido morto e a garotinha tomada como escrava. Dodola parece ter um dom especial para a fuga, consegue escapar de seus captores, e junto com ela leva Cam, um bebê negro de 3 anos que salvou da morte. Fugindo pelo deserto, eles encontram um barco em meio aos montes de areia e fazem dele seu lar. Dodola renomeia Cam para Zam, e por 12 anos vivem tranquilamente neste pequeno oásis que criaram, conseguindo água e alimentos com as caravanas que viam passar pelo deserto.

Aquela piadinha que a gente tanto ama/odeia do “só que ao contrário” desabou na graphic novel de Daniel Clowes em forma de sinopse – o que não deve ter sido intencional. “Wilson é um adorável malandro. Um pai e marido dedicado. Uma flor delicada.” Só que ao contrário. Wilson é mais irritante do que você pode pensar. Você está lá, quieto no seu canto tomando um capuccino delicioso e do nada um cara de óculos à lá Woody Allen senta na tua frente – sendo que todas as outras mesas estão vazias – e começa a puxar uma conversa sem sentido. E ainda se acha no direito de te ofender. Wilson é o cara que, sem ter nada para fazer, manda uma caixa cheia de merda de cachorro para sua ex-cunhada. Um troll da vida real. Ou melhor, dos quadrinhos.

Em Wilson, Clowes, conhecido pela HQ Ghost World, cria um personagem amargurado, idiota, intratável, inconveniente, e por isso tudo bom. Ele é ótimo. São 80 páginas, cada uma é uma tirinha que pode muito bem ser lida separadamente, mas que juntas formam toda uma história da vida de merda que Wilson tem. Resumindo bem: ele é um norte-americano de 43 anos, solitário, só gosta de sua cadelinha, não faz nada da vida e descobre que o pai está morrendo. Pronto, esses são os ingredientes para o livro mostrar as tentativas pífias do personagem em encontrar algum sentido para sua estada no mundo e tentar arrumar aquilo que, claro, estragou no passado, em busca da fuga da solidão em que sempre viveu.