Samarendra Ambani é suíço. Seu nome e aparência podem sugerir que não. Mas ele é suíço, logo ele é neutro e não desperta ameaças. Sam, como é conhecido, é arquiteto, filho de pai indiano e mãe suíça. Nasceu em Zurique. Tem uma namorada que pretende pedir em casamento e mora com a mãe e a irmã mais nova, debilitada por uma rara síndrome. Os pais não quiseram gastar com um tratamento arriscado que poderia dar a ela uma vida quase normal. Não tinham muito dinheiro, não queriam deixar a Suíça. Mas Sam quer algum dia poder pagar para que ela possa se recuperar, para que a irmã possa parar de desejar sua própria morte. Ao contrário da irmã, Sam é saudável. Nunca fica doente, nunca cai de cama.

 

Jörgen Hofmeester é um homem de bem. Pai zeloso, profissional respeitado, marido dedicado, e mesmo assim foi abandonado pela bela mulher. Se preocupa com o futuro da família, economiza para deixar às duas filhas o necessário para nunca passarem nenhuma necessidade. Um homem de bem naquela concepção clássica de alguém que age pensando no bem-estar da família, para mantê-la unida e abastecida com o que precisar. “De bem”. Hofmeester é o protagonista de Tirza, romance do holandês Arnon Grunberg traduzido no Brasil por Mariângela Guimarães. Um personagem que tem de tudo para despertar a simpatia de qualquer um com seu jeito certinho e regrado de tocar a vida, mas que por algum motivo desconhecido só é pisoteado por ela. Mas essa impressão não passa de um equívoco inicial.

Adam Gordon é norte-americano, tem 20 e poucos anos, é poeta e está vivendo em Madri. Ganhou uma bolsa prestigiosa para viver um tempo na capital espanhola para escrever. Mas no lugar de alegria, orgulho ou contentamento ( qualquer sentimento mais eufórico sobre ser um jovem poeta promissor), ele sente bem o contrário. A rotina é medida pelos momentos em que toma seus remédios para controlar a depressão e ansiedade. Mais fuma e passeia do que escreve. Enfim, Adam não se sente digno da bolsa, de ser chamado de poeta, não vê exatamente genialidade naquilo que escreve e pensa que a bolsa seria bem mais aproveitada por outro estudante que soubesse falar espanhol melhor que ele. Ele se considera uma farsa, e para disfarçar o iminente fracasso que vai desmascará-lo a qualquer hora, inventa algumas mentiras aqui e ali só para parecer mais interessante.

stoner-capaDepois de sua morte, o que será que resta de você no mundo? De William Stoner, o que restou foi um manuscrito medieval doado pelos seus colegas à biblioteca da Universidade do Missouri em sua memória, mas a lembrança de quem foi e o que fez não contém a mesma permanência que o livro. Stoner nasceu em 1891, morreu em 1956, e sua vida não foi das mais emocionantes. Mas ele é o protagonista de Stoner, romance de John Williams publicado em 1965 e resgatado da memória literária em 2003, depois de ficar tão esquecido como o seu personagem. Pessoas como Stoner merecem ter sua história contada, pois pessoas como ele são iguais a maioria de nós:  não são nada especiais, passam pelo mundo deixando poucas marcas, vão embora sem fazer muita falta. E a vida segue.

Filho de pequenos agricultores, Stoner foi parar na Universidade do Missouri por ideia de seu pai. Prevendo que a terra seca não traria muito futuro, seguiu a indicação de um amigo de enviar o jovem William à universidade para aprender mais sobre a terra do que ele jamais aprendeu. O garoto, com 19 anos, segue o conselho e vai para Columbia, assim como acontecerá com qualquer decisão que virá a tomar no resto de sua vida. É quase como se ele não fizesse escolhas por conta própria, sempre empurrado pelas ideias dos outros. Mas depois de dois anos na faculdade, ele decide trocar o curso de ciências agrícolas para o de literatura, matéria que desconhecia até então. E aí Stoner troca o trabalho na terra pelo intelectual. Um mundo completamente diferente daquele de onde veio.