Gatos sempre correram atrás de ratos. Esses seres minúsculos e rápidos são uma brincadeira deliciosa para aqueles animais ágeis, preguiçosos a maior parte do tempo e curiosos. A visão de um rato desperta o gato para infinitas possibilidades de brincadeiras torturantes em que, no final, o brinquedinho estraga. Shelley e sua mãe são como ratos, duas pessoas que não passam de objetos medonhos para seus colegas de escola, seu chefe e seu marido e pai. São fracas e não sabem impor suas vontades, engolem as dores e problemas como se fossem apenas delas e não deveriam ser compartilhados com mais ninguém, dando corda para que os gatos continuem suas brincadeiras malévolas sem consequências. Mas até ratos possuem um limite, e em algum momento uma bomba explode e transforma camundongos amedrontados em terríveis ratazanas.

Gordon Reece trabalha os limites do bullying e da humilhação em Ratos, lançado recentemente aqui pela editora Intrínseca. A história se passa numa pequena cidade inglesa quando Shelley e sua mãe, depois da garota ter sofrido meses com as agressões de suas colegas na escola e da separação de seus pais, se mudam para uma casa afastada de tudo à procura da tranquilidade que nunca tiveram. Shelley está marcada pelas cicatrizes das agressões que sofreu, terminando o ano letivo com aulas particulares em casa depois de entrar em acordo com a diretoria da escola. E sua mãe tenta levar a vida adiante e se sustentar em um emprego que lhe paga pouco e exige demais, colocando culpa nela mesma pela sua decadência profissional – de advogada talentosa que abandonou a carreira a uma simples assistente de um escritório.