Eu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance.