Quem acompanha o blog faz algum tempo já sabe o quanto gosto da Zadie Smith. Swing Time esteve entre minhas leituras favoritas de 2017, e White Teeth foi igualmente apreciado. No ano passado, a autora lançou mais um livro, mas dessa vez de ensaios: Feel Free, uma compilação de textos publicados em revistas e periódicos, e também discursos e outras falas que a autora concedeu sobre os mais variados temas. A não-ficção de Smith nunca foi publicada no Brasil, fora algum ensaio traduzido para uma revista ou para alguma exposição – como foi o caso de seu texto sobre The Clock, que esteve em cartaz no IMS de São Paulo. Mas, até onde eu sei, não há planos de lançar uma coletânea com sua não-ficção por aqui.

Gustavo Melo Czekster lançou sua primeira coletânea de contos, O homem despedaçado, em 2011 (Dublinense). Foi uma ótima estreia, e até hoje está entre meus livros favoritos de literatura brasileira. “Os textos de Czekster falam da fragmentação do homem, dele se separando dele mesmo na tentativa de se entender. Um exercício de autoconhecimento solitário e, na maioria das vezes, destrutivo”, escrevi sobre o livro na época. Em 2017, o segundo livro do autor foi lançado pela editora Zouk, Não há amanhã, com tema diferente de sua primeira obra, mas ainda com a narrativa afiada e inventiva que me fez gostar de seus contos.

Sempre imaginei que, entre a vinda do diabo e a volta do messias, o diabo seria mais divertido. Não sou nada religiosa, apesar de me interessar bastante pelo tema – a religião influencia demais toda a nossa vida e sociedade para que eu possa ignorá-la, então sendo religiosa ou não, é um assunto a se conhecer. Mas, caso tivesse algum tipo de fé ou crença, o diabo teria meu voto. Sei lá, os vilões sempre me agradaram. Demorei muito para ler O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (li na edição da Alfaguara, tradução de Zoia Prestes, mas dizem que a edição da Editora 34 é melhor), apesar de todas as recomendações e de estar na minha mira por pelo menos uns seis anos. A capa com o gato demoníaco me atraía sempre, mas por algum motivo eu sempre deixava para lá. Até ler esse artigo de Viv Grokop no Literary Hub sobre como a leitura desse romance é fundamental para tempos sombrios. E estamos em tempos sombrios. E a vinda do diabo não poderia ser mais divertida.

Na sociedade há padrões de comportamento que são repetidos quase que inconscientemente. Quando algo acontece, temos reações já pré-estabelecidas, regras sobre o que devemos dizer e expectativas quanto aos rumos da vida. Você estuda, você cresce na carreira, você casa, tem filhos, depois netos e então morre. Keiko Furukura tem 36 anos e está longe de seguir esse padrão. Funcionária de uma konbini há 18 anos – as famosas lojas de conveniência japonesa –, sua grande preocupação é esconder da sociedade a sua visão peculiar de mundo para ser vista como alguém normal. Mas o próprio fato de ter estar perto dos 40 e ainda trabalhar nesse estabelecimento conta como ponto negativo a seu desejo por normalidade.

Um bom resumo de Mac e seu contratempo, novo romance de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), seria a clichê frase “nada se cria, tudo se copia”. Em sua obra, Vila-Matas sempre tratou da própria ficção, da arte, do processo de escrita, do que é literatura e como ela se alimenta de suas influências. Neste romance, a metaliteratura está presente com força, abordada em um diário sobre a (re)escrita de um livro.

Quando uma autora que você gosta muito te decepciona, o sentimento é o mesmo de quando seu restaurante favorito te decepciona: triste demais. Meu primeiro contato com Donna Tartt foi aos 16 anos de idade, quando li A história secreta, uma trama sobre um grupo de estudantes da língua grega que se envolvem em rituais dionisíacos, uma certa dose de orgia e assassinato. Não é um livro de mistério, mas sim uma trama bem estruturada sobre amizade e segredos. Anos depois o li novamente e continuei achando o meu preferido. De O pintassilgo também gostei, talvez não com tanta força, mas o clima de A história secreta permanecia, aquela coisa da sofisticação de Donna Tartt que tanto gosto. Infelizmente, não tive a mesma sorte com amigo de infância.

Jean-Yves Berthault estava ajudando na mudança de uma amiga quando encontrou no sótão de sua casa um punhado de cartas com aparência antiga. Ao ler o conteúdo, o diplomata se espanta positivamente: são cartas de amor escritas entre 1928 e 1930, todas de autoria de uma mesma mulher, Simone, endereçadas a seu amante, Charles. Cartas com linguagem que indicam a boa educação de sua autora e, para a surpresa de Berthault, carregadas de conteúdo erótico.

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

Essa vai ser uma resenha curtinha de um livro curtinho. Voltando a morar em Nova York após anos vivendo em Paris, e se recuperando do luto pela perda da esposa e da filha, Philip, um escritor na casa dos 80 anos, reencontra em uma noite de ópera Lucy de Bourgh, mulher que na sua juventude foi uma figura estonteante da alta sociedade norte-americana. Herdeira de uma família de prestígio, Lucy foi casada com Thomas Snow, um homem que não nasceu em berço de ouro como ela e que alcançou a riqueza após o casamento e com o seu talento para investimentos. Anos depois da separação e da morte de Thomas, Lucy confessa a Philip que nunca quis, na verdade, ter se casado com ele, e a visão que a agora velha mulher tem de seus anos de matrimônio são as piores possíveis.

Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.