Na sociedade há padrões de comportamento que são repetidos quase que inconscientemente. Quando algo acontece, temos reações já pré-estabelecidas, regras sobre o que devemos dizer e expectativas quanto aos rumos da vida. Você estuda, você cresce na carreira, você casa, tem filhos, depois netos e então morre. Keiko Furukura tem 36 anos e está longe de seguir esse padrão. Funcionária de uma konbini há 18 anos – as famosas lojas de conveniência japonesa –, sua grande preocupação é esconder da sociedade a sua visão peculiar de mundo para ser vista como alguém normal. Mas o próprio fato de ter estar perto dos 40 e ainda trabalhar nesse estabelecimento conta como ponto negativo a seu desejo por normalidade.

Um bom resumo de Mac e seu contratempo, novo romance de Enrique Vila-Matas (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista), seria a clichê frase “nada se cria, tudo se copia”. Em sua obra, Vila-Matas sempre tratou da própria ficção, da arte, do processo de escrita, do que é literatura e como ela se alimenta de suas influências. Neste romance, a metaliteratura está presente com força, abordada em um diário sobre a (re)escrita de um livro.

Quando uma autora que você gosta muito te decepciona, o sentimento é o mesmo de quando seu restaurante favorito te decepciona: triste demais. Meu primeiro contato com Donna Tartt foi aos 16 anos de idade, quando li A história secreta, uma trama sobre um grupo de estudantes da língua grega que se envolvem em rituais dionisíacos, uma certa dose de orgia e assassinato. Não é um livro de mistério, mas sim uma trama bem estruturada sobre amizade e segredos. Anos depois o li novamente e continuei achando o meu preferido. De O pintassilgo também gostei, talvez não com tanta força, mas o clima de A história secreta permanecia, aquela coisa da sofisticação de Donna Tartt que tanto gosto. Infelizmente, não tive a mesma sorte com amigo de infância.

Jean-Yves Berthault estava ajudando na mudança de uma amiga quando encontrou no sótão de sua casa um punhado de cartas com aparência antiga. Ao ler o conteúdo, o diplomata se espanta positivamente: são cartas de amor escritas entre 1928 e 1930, todas de autoria de uma mesma mulher, Simone, endereçadas a seu amante, Charles. Cartas com linguagem que indicam a boa educação de sua autora e, para a surpresa de Berthault, carregadas de conteúdo erótico.

Em 1985, um parque está prestes a inaugurar no coração da floresta Amazônica. Tupinilândia é a exaltação da cultura brasileira: Artur Arara recebe de asas abertas o público adulto e infantil que poderá se encantar com montanhas-russas, carrosséis, réplicas de dinossauros, encontrar antigos personagens queridos da ficção e da realidade, tudo regado ao melhor da produção nacional. Tupinilândia não é só um parque de diversões, mas também uma cidade milimetricamente planejada. Como o município mais perto fica a dezenas de quilômetros de distância, os funcionários do empreendimento vivem dentro do complexo, contando com uma estrutura bem abastecida para atender a todas as suas necessidades. Tupinilândia é um sonho que está se tornando realidade. Ou quase.

Essa vai ser uma resenha curtinha de um livro curtinho. Voltando a morar em Nova York após anos vivendo em Paris, e se recuperando do luto pela perda da esposa e da filha, Philip, um escritor na casa dos 80 anos, reencontra em uma noite de ópera Lucy de Bourgh, mulher que na sua juventude foi uma figura estonteante da alta sociedade norte-americana. Herdeira de uma família de prestígio, Lucy foi casada com Thomas Snow, um homem que não nasceu em berço de ouro como ela e que alcançou a riqueza após o casamento e com o seu talento para investimentos. Anos depois da separação e da morte de Thomas, Lucy confessa a Philip que nunca quis, na verdade, ter se casado com ele, e a visão que a agora velha mulher tem de seus anos de matrimônio são as piores possíveis.

Samuel Anderson é um professor de literatura inglesa numa universidade próxima a Chicago. Está na casa dos 30 anos de idade, há 10 anos assinou contrato para um livro – que nunca chegou a terminar de escrever – e sente um imenso tédio ao dar suas aulas: alunos desmotivados, que não se interessam pelo tema e estão lá apenas por obrigação. A única coisa que faz Samuel esquecer um pouco da vida estagnada é Elfscape, um RPG online que joga após o expediente. Certamente Samuel preferiria continuar na calmaria do tédio cotidiano do que ter que lidar com vários problemas que surgem ao mesmo tempo: a “perseguição” de uma aluna que não aceita ser reprovada e o retorno de sua mãe, que o abandonou quando ele tinha 11 anos de idade.

Shaker Heights é uma cidade onde tudo funciona perfeitamente. O bairro planejado contém casas grandes e bem arrumadas, com o mesmo padrão de cores, com jardins bem cuidados. Manter essa ordem exige regras bem restritas, como cortar a grama nos dias certos e no tamanho certo, não deixar o lixo na parte da frente da casa para não afetar a vista das fachadas. Toques de recolher em datas festivas para que as ruas não se sujem demais, para que o barulho não atrapalhe ninguém da vizinhança. Shaker Heights é o subúrbio perfeito, o lugar em que qualquer pessoa que ama organização e ordem gostaria de morar, um lugar sem problemas, sem escândalos. Shaker Heights não é um lugar para pessoas como Mia e Pearl Warren, novatas no lugar, ou como Izzy, que acaba de sair da casa dos pais após atear fogo na residência.

Duas crianças estão mortas. O bebê morreu rapidamente. A menina, um pouco mais velha, não vai resistir às agressões. A mãe voltou mais cedo para casa, e o que encontrou foi o caos: seus filhos mortos e a babá que tentou tirar a própria vida depois do que fez. O primeiro capítulo de Canção de ninar, de Leïla Slimani (Tusquets, tradução de Sandra M. Stoparo) conta logo de cara qual é o desfecho dessa trama que fala sobre maternidade e sobre a relação de poder entre as classes. Slimani é uma das autoras confirmadas da Festa Literária Internacional de Paraty de 2018 e também uma das conferencistas do Fronteiras do Pensamento. Com Canção de ninar, foi a primeira autora de origem marroquina a vencer o Prêmio Goncourt, em 2016.

“Me chame de Jonah”, começa o protagonista e narrador de Cama de gato, de Kurt Vonnegut (Aleph, tradução de Livia Koeppl), que também pode ser chamado de John. Pensei logo em Moby Dick, um livro que nunca li – e não sei se quero ler. Mas nunca esqueci o final do filme Matilda, onde a garota confortavelmente sentada na sua cama faz o livro de Herman Melville flutuar até ela e o abre na primeira página: Call me Ishmael…