Meu primeiro contato com Siri Hustvedt foi com o livro O mundo em chamas, uma trama feita de retalhos que contava a história de uma artista plástica e seu experimento sobre como o mercado da arte, a mídia e o público recebem de formas diferentes o que é produzido por uma mulher e o que é produzido por um homem. Com digressões sobre a arte em si, sobre neurologia e psicologia, O mundo em chamas se tornou um dos meus livros favoritos. Mas quando fui ler outras obras da autora, como Os encantamentos de Lili Dahl e O verão sem homens, o furor que senti com seu romance mais recente não veio.

Quando lançou Conversas entre amigos, Sally Rooney recebeu o “título” de A Escritora dos Millennials. Não que eu ache saudável sair logo colocando rótulos em escritores estreantes, mas considero que, no caso de Rooney, é uma boa definição de suas personagens. Elas são millennials, a autora é millennial, a história usa ferramentas e a linguagem dos millennials. Em seu segundo livro, Pessoas normais (Companhia das Letras, tradução de Débora Landsberg) esse rótulo persiste. E não, não estou dizendo isso de forma negativa, muito pelo contrário – até porque já é tempo de parar de enxergar o termo como algo negativo.

Segundo Silvia Federici, “o ponto zero é tanto um local de perda completa quanto um local de possibilidades, pois só quando todas as posses e ilusões foram perdidas é que somos levados a encontrar, inventar, lutar por novas formas de vida e reprodução”. No contexto de O ponto zero da revolução, o segundo livro da autora de Calibã e a bruxa publicado pela Editora Elefante (tradução do Coletivo Sycorax), isso significa reconhecer a realidade em que vivemos e fazer um chamado para uma política em que as mulheres sejam reconhecidas como os principais sujeitos da reprodução de sua comunidade.

Identidade é aquela coisa que sempre estamos desenvolvendo, ou que estamos buscando descobrir qual é. É mais fácil quando sua família toda cresceu no mesmo lugar, com as mesmas referências sobre quem se é e onde vive bem claras e definidas. Para o protagonista de Meu pequeno país, romance de Gaël Faye (Rádio Londres, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto), a identidade e o lugar em que pertence não é uma questão tão clara assim.

Existe uma coisa com histórias de vida inteligente fora da Terra retratarem uma possível ameaça, ou naves gigantescas entrando no nosso espaço aéreo. Histórias bem cinematográficas, com imagens impactantes, sejam elas descritas em um livro ou criadas com grandes efeitos especiais nos filmes. Os “visitantes” podem ser ameaçadores e quererem destruir o mundo e escravizar os humanos. Ou podem ser seres tão confusos quanto a gente, que apenas querem se comunicar, mas não sabem como. Essas histórias mexem com nossos medos e esperanças, nos colocam naquele lugar de pensar: o que eu faria se isso fosse verdade?

Poucas coisas são tão desejadas pelo adulto moderno quanto horas ininterruptas do sono. Ao dormir, é como se todas as preocupações da vida evaporassem ao fechar dos olhos: trabalho, boletos, relacionamentos que deram errado, carreiras estagnadas. Um sono sem sonhos é o ápice do conforto e bem-estar. Queria eu dormir e acordar daqui a um ano, seja para ver as coisas melhorarem ou para ver o mundo pegar fogo. Mas pelo menos teria um ano inteiro de descanso extremo. Ou, como coloca a protagonista do segundo romance de Ottessa Moshfegh, um ano inteiro de descanso e relaxamento.

Os contos de fadas e filmes de terror estabeleceram a imagem da bruxa em nosso imaginário. Mulheres velhas, narigudas, com verrugas, que andam em vassouras e participam de cultos ao diabo em volta de fogueiras. Comem criancinhas e realizam outros sacrifícios. Jogam pragas e fazem feitiços. Crescemos com essa concepção de bruxa, e ela é, talvez, ainda a primeira coisa que vem na nossa mente quando ouvimos essa palavra.

“Quando vê um cadáver, um tralfamadoriano pensa apenas que a pessoa morta não está em boas condições naquele momento específico, mas que em diversos outros momentos essa mesma pessoa está muito bem. Agora, quando fico sabendo que alguém morreu, dou de ombros e digo a mesma coisa que os tralfamadorianos dizem sobre os mortos, que é o seguinte: ‘é assim mesmo’.”