Foi um amigo maravilhoso quem me mandou um livro de Joan Didion, Play it as it lays, e me apresentou à ela (obrigada, João <3). Era um romance que se passava em Los Angeles, sobre uma atriz enfrentando diversos problemas pessoais — a depressão, um casamento fracassado, a separação de sua filha. Eu amei o livro, mas não cheguei a resenhar ele aqui. Não me senti apta. Logo depois ele me presenteou com Slouching Towards Bethlehem, seu mais famoso livro de ensaios, e por mais que eu quisesse muito ler, acabei deixando para trás. 

Em setembro do ano passado, eu tive um colapso mental no trabalho. Não chegou a ser um burnout, aquele esgotamento de quando a gente está com coisas demais na mão, fazendo mais do que as nossas capacidades, e acabamos tendo um troço. Foi mais uma coisa de “não é isso o que eu quero fazer, isso não está me fazendo bem, eu quero sair”. E saí. De lá para cá, minha relação com o trabalho está muito diferente. Isso porque decidi priorizar eu mesma, as minhas coisas e os meus desejos, e não priorizar o trabalho em si. Porque percebi que, para eu me sentir bem, eu não preciso estar sempre produzindo e sempre disponível — embora, tenha que dizer, essa vida de freela exija que eu esteja disponível, mas de um jeito leve, sem muitas cobranças. 

Raquel Tommazzi é artista, tem 130 quilos, estudou na Europa e usa sua arte para discutir a violência. Alexandre Tommazzi, seu irmão, é dono de uma rede de academias, religioso, daqueles que prezam a família e os bons costumes. Durante uma palestra em um seminário sobre a violência, Raquel é espancada em cima do palco por um homem que tem ligação com seu irmão. Esse acontecimento repercute no meio artístico, e uma cineasta europeia vem até o Brasil para entrevistar Raquel e Alexandre sobre esse acontecimento para um documentário que trata, também, da violência. 

Para mim é difícil separar a obra de Domenico Starnone da de Elena Ferrante. Mesmo que os boatos de que os dois autores italianos sejam casados seja apenas isso, boatos, é inegável que seus livros conversam, e muito. Como Laços Dias de abandono, em que um parece ser o contraponto do outro. Durante a leitura de Segredos, seu mais recente romance lançado no Brasil (Todavia, tradução de Maurício Santana Dias), vi elementos de Ferrantes em vários momentos da história. Mas as semelhanças que, no começo do livro, me faziam lembrar Nino e Lila da tetralogia napolitana logo se desfizeram.  

Histórias sobre suicidas têm um certo apelo para mim. Houve uma época, anos atrás, que eu estava numa fase de ler só sobre suicídios: As virgens suicidas, do Jeffrey Eugenides; Norwegian Wood, do Haruki Murakami; Suicídios exemplares, do Enrique Villa-Matas. O que talvez diga muito sobre o meu psicológico daqueles dias. Sempre fui voltando para essas histórias, mas com parcimônia. A desse ano foi O amigo, de Sigrid Nunez (Editora Instante, tradução de Carla Fortino), vencedor do National Book Award de 2018.  

Berta Isla e Tomás Nevinson se conhecem desde a adolescência. Cresceram em Madrid, mas Nevinson tem dupla nacionalidade – a mãe é madrilenha, o pai é inglês. Por isso mesmo, após o colegial, ele parte para Oxford, onde chamu a atenção de um professor que havia trabalhado para o MI6 durante a Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos da ditadura de Franco, Nevinson se vê recrutado – praticamente obrigado – a trabalhar como agente secreto.

Computadores certamente nos ajudaram muito a melhorar. Facilita o trabalho, os processos, deixa tudo mais rápido e menos complicado. Mas eles por si só são complicados, e nossa falta de conhecimento sobre o funcionamento das máquinas pode nos deixar à mercê delas. Conhecê-las e entende-las é o aviso que James Bridle nos deixa em A nova idade das trevas (Todavia, tradução de Érico Assis), um alerta sobre a obscuridade nos tempos da informação.

“Faltava pouco para as oito da manhã quando o conselheiro titular Yákov Pietróvitch Golyádkin despertou de um longo sono, bocejou, espreguiçou-se e por fim abriu inteiramente os olhos. Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo, se tudo o que está acontecendo é de fato real ou uma continuação de seus desordenados devaneios.”

Após trinta anos de casamento, Boris deixa Mia. Segundo Boris não é um fim definitivo, é apenas uma pausa. Uma pausa, Mia sabe, que tem nome, sobrenome, emprego e idade: uma colega de laboratório do marido vinte anos mais nova do que ela. Poeta e professora, Mia tem um background bem diferente de Boris, um conhecido neurocientista, mas isso nunca foi um problema no casamento que lhe deu uma filha. E a injustiça dessa troca, a impossibilidade da vida sem o marido, leva Mia a um estado catatônico, uma dor que ela nunca pensou que poderia ter.