A infância na Elizabeth Street, no Lower East Side em Nova York, diz muito sobre o futuro do pequeno e asmático Marty, embora ele nem fosse pensar isso na época. Ali, entre as décadas de 1940 e 1950, a comunidade italiana como todos conhecemos – alegre, festiva e intensa – convivia ao lado de outra característica que ligamos muito aos ítalo-americanos: a máfia, a violência, o medo. Marty sentia o peso desse ambiente na sua juventude, e mesmo com sua família estando fora das atividades perigosas exercidas por boa parte de seus vizinhos, saber que o pai daquele amigo com quem brincou no dia anterior foi morto por criminosos e que a qualquer hora alguém poderia sumir desse jeito, era um fato amedrontador. Para fugir disso, a igreja e as salas de cinema foram seus esconderijos.

É falando dessa infância atribulada em Little Italy que Richard Schickel dá inicio à conversa com um dos maiores diretores de cinema norte-americano, Martin Scorsese. Na verdade, o diálogo parece ter início bem antes, mas é a partir desse momento que o leitor entra na roda como um expectador invisível para conhecer mais intimamente a história e trabalho do diretor. Em Conversas com Scorsese, com uma edição brasileira mais que caprichada publicada pela editora Cosac Naify, até quem não é lá muito chegado a cinema, ou conhece pouco da filmografia do diretor, se encanta com a visão e dedicação de Scorsese ao seu trabalho.