Há um certo perigo na literatura experimental, que é o leitor não entender direito qual é a intenção do autor. Por que a estrutura desse livro é assim? O que esse capítulo tem a ver com o anterior – e com o próximo? Por que tantas personagens e histórias paralelas? Eu só queria ler uma boa história, mas já estou na página 100 e ainda não entendi qual é a desse livro… Quando me perguntavam o que eu estava achando de Nocilla dream, primeiro livro da trilogia de Agustín Fernández Mallo, era essa a minha resposta: “não entendi qual é a vibe do livro ainda”.

Mas você não precisa saber resumir o enredo de um livro em 140 caracteres para que ele seja bom. É só deixar se levar capítulo a capítulo até a última página para reconhecer o potencial da narrativa e tentar elaborar algumas interpretações e explicações. Pois é melhor, então, falar daquilo que me pareceu mais importante na obra de Mallo: o álamo no meio do deserto de Nevada. Nesse deserto, todos os álamos pereceram, mas restou apenas um, perdido no nada, e carregado de pares de sapatos presos em seus galhos pelos cadarços. Botas, tênis, sandálias, são centenas de pares que, apesar de ocuparem todos os cantos da árvore, não a danificam. Ela segue viva.

O primeiro parágrafo já tinha me pegado de jeito logo na primeira leitura, lá quandoNoites de alface era só um capítulo solto dentro da Granta dos 20 melhores jovens escritores brasileiros. Não sou de colecionar “inícios marcantes” de romances, novelas ou contos, mas acho que vou começar a fazer isso agora:

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Em um parágrafo de poucas linhas, Vanessa Barbara passa ao leitor toda a dimensão emocional da história: Ada morre inesperadamente, e deixa uma falta enorme em sua casa. Falta que irá permear todo o romance. No parágrafo seguinte, sabemos quem é que realmente vai sofrer com essa perda: Otto, o homem com quem é casada desde 1958 e que nunca saiu do lado dela por mais de 50 anos. Ada era a única pessoa com quem Otto se importava e falava. Na pequena cidade do interior, na casinha amarela prensada entre outras casas que ocupam o morro em que está localizada, é apenas com ela que ele interage. Não possuem filhos ou parentes próximos, e Otto só nutre amizade com uma pessoa, o Sr. Tanaguchi, um ex-soldado japonês da Segunda Guerra que agora sofre de Alzheimer (e que, por conta disso, Otto não visita mais).

Eu tenho um celular da moda. Roupas da moda. Talvez pudesse ter um carro da moda, um apartamento decorado por um decorador famoso, livros de design na mesinha de centro, a televisão mais cara, com mais polegadas e mais funções extras além da tradicional função de “ver TV” que provavelmente eu deixaria ligada a tarde inteira sem mal olhar para ela. Poderia ter essas coisas se economizasse, ou se eu me importasse com elas. Mas muita gente se importa, principalmente hoje. Ter é ser. É status. E há quem dê mais valor a isso do que às coisas que realmente são importantes.

Clarissa é uma menina de 11 anos muito mais madura do que sua idade aparenta. Ela é a filha única de Lorena e Augusto, um casal de publicitários donos de uma agência que moram no bairro mais bem localizado da maior cidade do país, tem o melhor carro, os melhores gadgets, os melhores amigos ricos e a melhor TV “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (embora nunca estejam em casa para usufruir das centenas de canais da TV a cabo nesse lindo aparelho). Clarissa é bem solitária, tem poucos amigos na escola, está um pouco acima do peso e usa roupas estranhas, maiores para o seu tamanho, todas presente de uma mãe que não sabe nem qual é a numeração das calças da filha. Ela esquenta sua comida sozinha, brinca com seu gato, Zazzles, e assiste a programas na televisão “Full HD, conexão à Internet, com 3D, 52 polegadas” (prefere os documentários, nunca aproveita a tal conexão à internet) até a hora de dormir, e talvez nem veja seus pais no fim do dia. Clarissa é jovem demais para ter a vida medíocre e triste que Luisa Geisler narra em Quiçá, seu primeiro romance.

Um escritor que vai para Dublin passar um tempo para escrever um livro ambientado na cidade provavelmente vai falar de James Joyce em algum momento da narrativa, certo? Errado. Nem usar o estilo Ulysses de ser? Talvez. Mas a referência pode não ser assim tão clara, e aí você passa um livro inteiro sobre Dublin sem nem pensar em Orlando Bloom, Molly, Joyce e companhia. Melhor fugir do clichê. Quem esperaria um pouquinho da grande obra joyceana em Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari, pode se decepcionar um pouco, mas apenas nesse aspecto. Só porque se passa em Dublin e as personagens não sabem muito bem o que fazer com a vida e as coisas simplesmente “acontecem” com elas, não quer dizer que Joyce deveria estar ali aparecendo nas entrelinhas de cada página – na verdade ele aparece, quando o protagonista fala de “turistas pretensiosos”. Esse parágrafo só está aqui para dizer que não pensei em Joyce em momento algum da leitura, e isso foi bom.

Nos idos de 1750, o Brasil era um território divido entre portugueses e espanhóis. Nas terras gaúchas, jesuítas catequizavam e auxiliavam os índios guaranis, que eram mortos aos montes pelos soldados portugueses e espanhóis durante disputas pelo território. A ciência ainda estava engatinhando, ser esclarecido era ser excêntrico, muitos livros eram proibidos e, no caso dos brasileiros, tinham que ser importados pois não era permitido imprimir uma folha sequer no Brasil (pensamento paralelo: engraçado pensar que ainda hoje reclamam do acesso aos livros – preço e oferta – quando eles pululam por aí. Se bem que, em alguns locais, realmente é complicado). Pouco sei sobre esse Brasil, não li muitas histórias sobre ele, ou elas nunca me pareceram muito interessantes a princípio. Felizmente, o novo livro de Samir Machado de Machado superou a barreira do desinteresse e me presenteou com quatro ótimas histórias ambientadas nessa terra cheia de conflitos, com muitas aventuras e exaltação da leitura e dos livros.

Existe um fetiche por trás das road trips de filmes de Hollywood. Nelas não há filas e o incômodo de uma rodoviária ou aeroporto, não existem atrasos, pois sendo um viajante de carro sem destino você provavelmente não se importa com o tempo da viagem, e geralmente não existem congestionamentos – pois pode-se seguir por caminhos alternativos, afastados, desconhecidos, onde há só o carro e a estrada. Tudo isso dá uma sensação de imensa liberdade, você não tem destino definido, pode sair dirigindo a hora que quiser, pode mudar de ideia no meio do caminho e alterar todo o seu trajeto. Mas a maior liberdade está no fato de que você pode fazer uma road trip: largar por alguns dias ou semanas trabalho, aula, família e todos os problemas que existem e desfrutar da solidão da estrada, correndo o risco de viver uma experiência única ou passar por momentos de tédio absoluto. Mas não importa, ainda sim, prevalece o fato de que você é livre para fazer isso. Esse foi o motivo número um de eu começar a ler Todos nós adorávamos caubóis, terceiro livro de Carol Bensimon.

Ulises Lima e Arturo Belano podem parecer meros coadjuvantes que uma vez ou outra aparecem na vida de Juan García Madero, a personagem que inicia os relatos através de seu diário em Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Ok, é só ler a orelha do livro para saber que os protagonistas são Belano e Lima, o que já encaminha a concentração do leitor para as aparições dessas duas personagens. Mas por mais que sabemos que tudo gira em torno dos dois jovens poetas e suas andanças pelo México e também pelo mundo, é impossível não se deixar levar pelas histórias daqueles que conviveram – muito ou pouco – com eles.

O romance inicia no México da década de 1970. Arturo Belano, um chileno, e Ulises Lima, mexicano, são dois jovens criadores do real-visceralismo, um grupo de poetas da capital que passa os dias na boemia enquanto escrevem, leem e discutem a poesia atual do país. Belano e Lima se empenham na investigação da vida e obra daquela que seria a mãe dos reais-visceralistas, a poeta vanguardista Cesária Tinajero, cuja poesia poucos leram e se perdeu nos anos 1920 na revista que havia organizado, assim como sua própria figura, desconhecida de muitos. Dividido em três partes, essa história começa – e termina – a ser narrada por García Madero, um estudante de direito e poeta de 17 anos que se une aos real-visceralistas e conta ao leitor suas novas experiências – a primeira vez, os porres tomados com os poetas que agora segue e o cotidiano do meio artístico da capital mexicana que aos poucos vai descobrindo.

No século que prometia grandes invenções, novidades e evolução social, Portugal era acusado de continuar tratando suas colônias como o fazia desde sempre: com excessiva exploração de suas terras e seus nativos. Com a abolição geral do regime escravagista em todas as suas colônias em 1875, o país que descobriu o Brasil ainda não havia erradicado de vez o trabalho forçado nos territórios controlados, tanto por conveniência quanto por atraso político. Para todos os portugueses não existiam mais escravos, os trabalhadores eram livres para ir e vir pelos territórios sob governo do país europeu. Mas para outras nações, inclusive aliadas, a mão-de-obra que trazia riquezas para o império português vivia em uma escravidão velada, escondida por leis que diziam conceder vida digna aos colonizados, mas que não eram efetivamente postas em prática.

Ao ler qualquer obra cuja edição data de antes dos anos 1970, percebe-se muita diferença entre a gramática utilizada no texto e a atual. Assim como acontece nos clássicos da literatura em língua portuguesa que contém termos que não usamos mais. Uma prova mais do que certa de que a língua muda, não importa qual. Da mesma forma, hoje utilizam-se palavras que aparecem em algum texto obscuro nos jornais ou na internet que naquela época não existiam. Os neologismos de cada dia que preenchem e modificam o vocabulário. Essas novas palavras são o tema central de Milagrário Pessoal, livro do angolano José Eduardo Agualusa, que é uma viagem pelos países da língua portuguesa e uma homenagem ao próprio idioma.