Quando Salman Rushdie teve sua cabeça posta à caça pelo aiatolá Khomeini em 1989 por conta da publicação de Os versos satânicos, muitos disseram que o escritor havia arranjado sarna para se coçar. Como se a sentença de morte a ele fosse certa, compreensível, já que ele supostamente havia blasfemado contra uma religião que muitas vezes se mostra extrema contra opiniões alheias e  que teria que arcar com as consequências. Como se, na frente de um líder religioso, fosse proibido contradizê-lo e a seu Deus. Enfim, disseram que o livro provocou e teve o que “merecia”. Tudo porque um autor usou como base para sua história os versos sagrados e apresentou um cenário não muito lisonjeiro do islamismo (e de muitas outras religiões).

Em Os versos satânicos, dois atores indianos – um radicado na Inglaterra, outro famoso em Bombaim – sobrevivem a um curioso ataque terrorista ao voo que faziam da Índia para Londres. Ambos caem de cerca de 30 mil pés de altura após a explosão da aeronave, e enquanto todos já os consideravam mortos, surgem vivos em uma praia afastada em solo inglês. Vivos, mas modificados. Gibreel Farishta, astro de Bollywood, encontra acima de sua cabeça uma auréola, e seus sonhos vívidos em que é um anjo da anunciação se tornam ainda mais evidentes e interferem na realidade. Do corpo de Saladin Chamcha, o ator das mil vozes, começam a surgir misteriosos chifres, rabo e pelo espesso, e aos poucos ele se transforma em um bode, uma encarnação do Diabo.

À meia-noite de 15 de agosto de 1947, data em que a Índia oficializava sua independência e se tornava, enfim, uma república, milhares de crianças nasceram. Não exatamente a essa hora, mas ao longo dos primeiros 60 minutos da Índia como um país independente, essas crianças vieram ao mundo e foram chamadas de “filhos da meia-noite”. O fato de nascerem junto com seu próprio país poderia, por si só, ser especial. Mas como quase tudo na Índia é envolto por magia e fantasia – ou assim nos faz pensar suas lendas e histórias – elas vieram ao mundo com algo a mais. Com poderes que, mais tarde, seriam descobertos por outro filho da meia-noite.

Esse filho tem agora 31 anos, e enquanto cria fórmulas de condimentos em conserva e os deposita em potes numerados, cada um também com um título – como capítulos de um livro – conta sua história a uma mulher com o nome da deusa do excremento, Padma. Salim Sinai foi um dos dois meninos que nasceram exatamente à meia-noite desse 15 de agosto, e foi ele também quem reuniu todos os outros filhos e os fez se descobrirem telepaticamente. Com um nariz de tamanho descomunal e certa aptidão para o fracasso, o rico garoto muçulmano residente em uma “colina de dois andares” na capital Bombaim relembra, para Padma, toda a sua trajetória, a de sua família e a de seu país.

as-entrevistas-da-paris-review-vol-2A Paris Review é uma das maiores referência em revistas literárias. Fundada em 1953, o que guia a publicação é a criação literária e poética, e além de publicar autores e suas ficções, também abre espaço para a crítica – que quando lançada, propôs tirar a análise dos livros da exclusividade acadêmica e levá-la para um público mais amplo. Não são apenas os contos, poemas e críticas publicadas o grande conteúdo da Paris Review, mas também suas extensas entrevistas da série “Writers at Work”, que como o nome sugere, mostra ao leitor como grandes autores trabalham em suas obras, como criam.

Há pouco tempo a Companhia das Letras lançou no Brasil o segundo volume de As entrevistas da Paris Review, uma série de livros que reúnem as mais célebres entrevistas com escritores, jornalistas e autores de teatro. Se o primeiro volume contou com nomes como Truman Capote, Doris Lessing, Jorge Luis Borges, William Faulkner e Ernest Hemingway, o segundo traz um time composto por Joseph Brodsky, John Cheever, Julio Cortázar, Salman Rushdie, Hunter S. Thompson, Arthur Miller, Martin Amis, Louis Begley, Marguerite Yourcenar, Elizabeth Bishop, Milan Kundera e Vladimir Nabokov. Não é pouca coisa.

Os vários atos que definem a palavra “vergonha” estão presentes no livro que leva esse sentimento como nome. Desonra, humilhação, afronta, timidez, vexame. Tudo isso ligado a um jovem país, que poderia ser o Paquistão, mas não, é um lugar fictício, fruto de uma mente fantasiosa. A mente de Salman Rushdie, que publicou em 1983 o livroVergonha, o sentimento que faz as pessoas corarem e abaixarem a cabeça perante leis, crenças e comportamentos rechaçados pela cultura ocidental. Em nova edição lançada ano passado pela Companhia das Letras, o romance que mistura política à fantasia esmiúça a vergonha de seus personagens, mostrando que dela surge uma fúria impossível de ser controlada.

Dezoito anos depois de Haroun viajar até a segunda lua (invisível) da Terra, onde havia um Mar de Histórias que terminava no Lago da Sabedoria, de onde canos (também invisíveis) levavam a água mágica para os contadores de histórias, surge uma nova aventura. Mas dessa vez não é Haroun quem protagoniza a nova viagem. Nessa história, ele já é grande demais para isso, e o heroi da vez é seu irmão mais novo, Luka. Vemos o já então conhecido Xá do Blá-Blá-Blá, o contador de histórias Rashid Kahlifa, pai dos garotos, mais uma vez em risco.

Se há na literatura tantas boas histórias que figuram no meio fantástico, por que não contar uma que fale justamente de onde vem essas histórias? Qual a origem da inspiração para que autores e trovadores inventem casos tão interessantes para ler e ouvir? Pode-se tratar apenas de uma imaginação aguçada, ou talvez de uma segunda lua que gira em velocidade descomunal em volta da Terra, abastecendo-a com a água do Mar de Histórias, de onde vem todos os contos do mundo.

Ruas de pedras dos tempos coloniais, que cansam os pés e provocam tropeços. Casas brancas com grandes janelas e portas de madeira, de batentes coloridos e telha de barro. Espera-se que o Centro Histórico de Paraty, no Rio de Janeiro, continue assim, antigo, por muito tempo. E também espera-se que em todos os anos a literatura e a arte voltem a ocupar as ruas de pedras e casarões brancos da cidade. Esse é o lar da Festa Literária Internacional de Paraty, ou a FLIP, o maior evento de literatura do país que traz grandes autores para discutir livros e histórias.

Falei que teria novidades, e ei-las. Tirei uma folga no trabalho, pois vou viajar. Daqui a algumas horas estarei no aeroporto aguardando pelo meu voo para o Rio de Janeiro. Fazer o que lá? Ir cobrir a sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty para o Ambrosia! A tão conhecida FLIP começa amanhã e vai até domingo. Entre os grandes nomes presentes nessa edição estão os autores Salman Rushdie, Isabel Allende e o quadrinista Robert Crumb.