Quando terminei a resenha de A amiga genial no ano passado, falei que a curiosidade de ler a série Napolitana de Elena Ferrante vinha desse mistério sobre a autora: dá poucas entrevistas e nenhuma pista sobre sua real identidade. Mas além disso, também falei que, fora essa curiosidade, o romance se sustenta sozinho, justamente o objetivo de Elena ao querer manter a sua identidade desconhecida. Se eu pensava que essa era uma estratégia muito bem-feita de chamar a atenção do mercado editorial e de ser lida, não penso mais o mesmo depois de ler o segundo livro, História do novo sobrenome. Não importa mesmo quem ela é, porque enquanto lia nem pensava nesse mistério. A qualidade de A amiga genial e a maneira que o livro terminou fizeram minhas expectativas crescerem muito com a série, e o segundo livro alcançou todas elas.

a_amiga_genial_capaEu lembro de, na escola, ter umas coleguinhas em que me espelhava para tentar ser como elas. Bonitas, bem vestidas, inteligentes, geralmente elas vinham de famílias que tinham mais dinheiro que a minha. Era uma mistura de inveja com admiração, creio eu. Não é que eu odiava elas daquele jeito tipo “se eu não tenho isso, elas também não podem ter”. Eu queria estar próxima delas, por mais que visse que algumas não gostavam das mesmas coisas que eu e até eram meio “malvadas” – faziam fofoquinhas, zombavam dos outros alunos, essas coisas. Eu não era esse tipo de gente, mas achava importante estar perto para ter um tipo de aprovação delas, para que elas vissem que eu era tão boa como elas. Acho que por isso achei tão fácil me identificar com Lenu Greco, a narradora e protagonista de A amiga genial, de Elena Ferrante (tradução de Maurício Santana Dias).

Lenu – apelido para Elena – tem essa relação com Lila – Rafaella Cerullo –, com quem desde criança firmou uma amizade marcada justamente por essas características: o desejo de ser como ela, a competição velada entre as duas para ver quem estava mais à frente, seja nos estudos ou na vida social, a necessidade de aprovação uma da outra. Mas, acima de tudo isso, a admiração, principalmente da parte de Lenu, que é quem nos conta essa história toda.