Quando Cecilia cortou seus pulsos e se deixou esvair em sangue dentro da banheira da família Lisbon, a preocupação pelo bem-estar das meninas tornou-se fato de curiosidade de todos os moradores daquela rua de classe-média. A tentativa de suicídio aos 13 anos de idade confirmou que havia algo de errado com a caçula dos Lisbon. Para tentar recuperá-la, seus pais afrouxaram as regras da casa para ela e suas irmãs Lux, Bonnie, Mary e Therese – de 14, 15, 16 e 17 anos. Porém, a determinação de Cecilia era mesmo tirar a própria vida, e durante uma festa das irmãs para os seus vizinhos e colegas, a garota atinge seu objetivo ao se jogar da janela de seu quarto e cair em cima da cerca pontiaguda que rodeava a casa. Em um ano, todas as suas irmãs procurariam semelhante destino.

Quem narra a trágica história das garotas Lisbon em As virgens suicidas são seus próprios vizinhos, encantados pela beleza das meninas e também pela distância que guardam dela, o que as tornam praticamente intocáveis, alcançadas apenas em sonho. O livro de Jeffrey Eugenides é uma de suas obras mais aclamadas, e foi adaptado para as telas do cinema pela diretora Sofia Coppola. Os garotos contam, já adultos, tudo o que aquela rua vivenciou no ano após a morte de Cecilia, registrando minuciosamente a decadência da casa dos Lisbon e da sanidade de todos os seus moradores – não temos certeza se é apenas uma voz ou são relatos de todos que compõem a narrativa. Através de documentos, entrevistas e objetos que resgataram do lugar e guardam anos depois, tentam, de todas as maneiras, entender o que levou aquelas cinco garotas a preferirem deixar de viver em plena juventude.

Nas últimas semanas, o suicídio tem virado um tema de reportagens e discussões pela mídia. Isso no jornalismo brasileiro, que raramente relata casos em que pessoas tiram a própria vida – uma questão ética da profissão que até hoje ainda não conseguem explicar direito. Houve dois casos recentes que chamaram bastante atenção: o da menina indiana de 17 anos, levada pela polícia a não denunciar o estupro coletivo que sofreu e decidiu se matar; e a de uma jovem estagiária de advocacia paulista, estuprada pelos colegas do trabalho numa festa de fim de ano que se jogou do prédio em que morava. Ambos os casos tem por trás do suicídio um trauma físico e mental enorme, uma violação do corpo e a impunidade dos agressores. Coincidentemente, enquanto esses casos vinham à tona na mídia brasileira, estava lendo Norwegian Wood, livro publicado pelo japonês Haruki Murakami em 1987, em que o suicídio tem uma natureza levemente diferente da que impulsionou essas tragédias reais.