Para quem conheceu Thomas Pynchon lendo Contra o dia – seu calhamaço de mais de mil páginas com inúmeras histórias e personagens que não parecem fazer sentido algum – enfrentar Vício inerente é bem mais tranquilo. Sim, fiz a doidice de começar a ler o autor mais recluso e zoeira de todos com uma história nada fácil, e maravilhosa. Vício inerente já estava há algum tempo na minha pilha de leituras – assim como está Mason & Dixon – e decidi dar a vez a ele por um motivo bem claro: o livro está sendo adaptado para os cinemas por Paul Thomas Anderson, e deve estrear ainda este ano. Em casos especiais, eu gosto de ler o livro antes de ver o filme.

Vício inerente é uma história de detetive que resgata o protagonista de Vineland e O leilão do lote 49. Larry “Doc” Sportello é um detetive particular que viveu intensamente a época do Flower Power e toda a cultura hippie dos anos 1960. Mas neste livro, que situa o protagonista no início dos anos 1970, a cultura hippie já não está tão em alta, e aos olhos de muitos Doc não passa de um maconheiro fracassado. Pois sim, ele vive chapado, e não esconde isso de ninguém. A maconha, aliás, tem papel importante em toda a jornada do livro.

Um dos meus primeiros contatos com Thomas Pynchon foi através de Como funciona a ficção, do crítico James Wood. Segundo ele, Contra o dia é um exemplo de uma fraqueza no romance pós-moderno: “Não existe nada mais setecentista do que o amor de Pynchon pela multiplicação picaresca do enredo, seu arremedo de pedantismo que, ao mesmo tempo, é um amor pelo pedantismo, seu costume de apresentar personagens rasos dançando em cena por um instante, para despachá-los logo em seguida, seu gosto vaudeviliano por nomes bobos, piadinhas, reveses, disfarces, erros farsescos etc.” É mesmo isso o que Pynchon faz, seu livro é recheado de personagens praticamente incontáveis, que se cruzam, somem e reaparecem conforme os caprichos do autor. Mas Wood reconhece: “Há como extrair prazer dessas telas agradáveis e cheias de gente, e há trechos de grande beleza”. Muitos trechos.

O segundo contato com o autor veio através do conto “Esse maldito sotaque russo”, publicado em A página assombrada por fantasmas, do Antônio Xerxenesky. O nonsense do conto (um detetive à procura de Thomas Pynchon que descobre que seus livros estão sendo escritos, na verdade, por sua amante russa que é nada mais nada menos que Maria Sharapova) me fez esquecer totalmente da crítica de Wood. Quando a Companhia das Letras lançou a tradução do livro, aquela máxima do “ame ou odeie” despertou vontade de ler e ver para que lado eu penderia: foi para o “ame”.