Uma fábrica de sucos do México convidou a autora Valeria Luiselli para escrever sobre a organização do catálogo de uma galeria. Essa fábrica patrocina e mantém uma das maiores coleções de arte do país, e o convite fazia parte de mais uma obra artística. Valeria aceitou a encomenda, porém não queria escrever sobre esse tema específico. Ela se interessou mais pelos operários da fábrica. E assim começou a escrever capítulos curtos que, semanalmente, eram enviados de Nova York, onde vive, para o México. O texto era impresso em pequenos caderninhos e distribuídos entre os operários que liam e, uma vez por semana, se reuniam para discutir o texto. Os encontros eram gravados e os comentários eram, então, enviados de volta para Valeria nos EUA. Ela fazia alterações conforme as sugestões ou críticas dos funcionários da fábrica de sucos. Assim nasceu A história dos meus dentes (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman).

Só porque as listas de bons livros lidos nos anos anteriores sumiram do blog – aquele problema lá que me obrigou a passar horas subindo todas as resenhas novamente -, e porque estou com vontade de fazer uma lista, aqui vai o meu top 16 de melhores leituras do ano. Queria que fosse um top 5, ou no máximo um top 10, mas revendo a lista de livros lidos de 2013 vi que seria impossível fazer uma seleção mais enxuta.

Foi um ano de bons livros, apesar de ter lido menos que o esperado por ter que me dedicar mais ao final do curso de jornalismo e usar boa parte do meu tempo de leitura para isso – aos curiosos, podem me considerar formada. Talvez se eu ainda estivesse no meu ritmo antigo de leitura essa lista fosse maior. Talvez. Mas estou satisfeita com o que li, e principalmente com o que conheci durante esse ano.

Não sei se existe alguma regra que define a partir de que ponto você tem certeza que um livro é bom. Ou quantos livros de um determinado autor você precisa ler até ter certeza de que ele realmente é bom. Como quase tudo na literatura, essas relações de gosto são bem relativas. Um parágrafo pode ser o bastante para alguém se apaixonar por uma história, enquanto outros sempre ficarão à procura das qualidades que fazem aquele escritor ser adorado por tantos. Isso tudo só para dizer que para mim as coisas também funcionam de um jeito bem diferente dependendo do livro. O ideal é o básico: ler tudo, e na última página decidir se é bom ou não. Mas às vezes ignoro essa minha própria regra, e já determino bem antes disso o que pensei sobre o livro.

Com Valeria Luiselli, posso dizer que lá pela página 20 do seu romance eu estava totalmente encantada com a sua narradora. Valeria nasceu na Cidade do México, vive entre o México e Nova York, onde faz mestrado na Universidade de Columbia. Antes de Rostos na multidão, havia publicado apenas um livro de ensaios em 2010. Assim como a autora, a protagonista e narradora do romance é uma mexicana que se divide entre a capital do país e a Big Apple. O elemento curioso do livro está presente logo no começo, que deixa claro que toda a história é fragmentada, montada com pequenos parágrafos que alternam-se em tempo e espaço, um agrupamento de retalhos literários que dão conta da história da mulher. “Os romances são de longo fôlego. Assim querem os romancistas. Ninguém sabe exatamente o que significa, mas todos dizem: longo fôlego. Eu tenho uma bebê e um menino médio. Não me deixam respirar. Tudo o que escrevo é – tem que ser – de curto fôlego. Pouco ar.”